Conta Joseca Yanomami que é assim que acontece quando os Yanomami sonham. “Quando dormimos superficialmente, sonhamos pouco, nossos sonhos ficam fracos e não sonhamos claramente, pois nossa imagem (utupë), não saiu de perto de nosso corpo. Mas quando dormimos profundamente, na floresta, sonhamos muito, nossas imagens alcançam lugares distantes. Nossa utupë se distancia e, quando estamos sonhando longe, é como se estivéssemos acordados, mas é diferente. Vemos imagens diferentes, viajamos por lugares outros, visitamos uma outra dimensão. É nesses lugares também que buscamos nosso conhecimento. Mas, para o xamã, é diferente. Quando ele dorme, seu corpo adormece e depois seu interior desperta. Os xamãs não dormem muito bem, pois os espíritos xapiri que vivem dentro de seu peito, na casa dos espíritos (pei mak+), são muito numerosos e fazem muito barulho. Mesmo quando a floresta está tranquila e silenciosa. Assim que acontece com quem é xamã, eles não dormem bem, seu corpo adormece mas eles estão sempre despertos dialogando com os xapiri, viajando longe, buscando os espíritos bons que nos ajudam ou aqueles que causaram alguma doença. São muitos os seres que vivem na floresta e os espíritos xapiri são realmente muito numerosos. Vocês brancos não conseguem vê-los, por isso não os conhecem, assim como também não sonham como nós. Por isso eu faço meu trabalho, por isso eu trago essas imagens dos sonhos e dos xapiri, para que vocês possam ver e conhecer, e então poderão falar: ‘Sim, é verdade, é assim que fazem os xapiri!’.”
Talvez a experiência de estar diante de uma obra de arte nos leve a lugares quase tão distantes quanto aqueles que alcançamos quando dormimos bem. Talvez ficar observando os trabalhos reunidos na Bienal das Amazônias seja como dormir bem na floresta. Esta segunda edição, que a curadoria de Manuela Moscoso, Sara Garzón, Jean da Silva e Mónica Amieva intitulou Verde-Distância, é sobre o sonho e a memória. Diz ser também sobre sotaques. Os muitos sotaques dos 74 artistas e coletivos vindos de cantos diversos de oito países amazônicos, equiparáveis aos “milhares de tons de verdes” da floresta, enumerados no romance Verde Vagomundo (1971), do autor paraense Benedicto Monteiro.
Sotaques que, na semana de abertura, de 27 a 31 de agosto, puderam ser ouvidos nas quatro “assembleias”, dinâmicas em que os curadores falaram sobre os eixos “verde-memória”, “verde-distância”, “verde-sotaque” e “verde-sonhos” e em que os artistas presentes puderam se apresentar e escutar uns aos outros. Por isso, esta Bienal das Amazônias é sobre encontro.
TÃO LONGE TÃO PERTO
Real e imaginário, geométrico e orgânico, tecnologia e tradição, rural e urbano, imagem e invisível, sonho e vigília, texto e imagem. A exposição joga com a relativização de paradigmas, paradoxos e promove a percepção de proximidades insuspeitas. “Tensionar fronteiras, sem buscar reconciliá-las”, diz a legenda de Zángano (2024), sobre como Astrid González (Medellín, Colômbia, 1994) articula ciência e espiritualidade ao encenar um curandeiro da medicina tradicional afro-colombiana com habilidades espirituais de se transformar em pássaro.

Ao observar os desenhos de Joseca Yanomami – e escutar as palavras que os completam –, entende-se que eles são como arquivos da cosmologia yanomami. E, nesse sentido, não estão tão distantes dos vídeos de Mayro Romero (Portoviejo, Equador, 1995), por mais diversos que eles possam parecer e que de fato sejam. Orden Cerrado. Guia de Calentamientos y Ejercícios de Control para Niñxs (2019) e Rojo: El Discurso Soberano a Matar Desde el Tachón (2019-2020) são filmes de arquivo, que tornam visíveis a militarização da vida civil e as violências normalizadas do cotidiano do Equador. Orden Cerrado, por exemplo, é feito a partir da edição de found footage de sessões disciplinares de condicionamento infantil em festas militares. Ambos os artistas, portanto, também falam da infância em perigo.
Em contraposição às perversas coreografias de controle social denunciadas por Romero, temos as assembleias mágicas de Brus Rubio (Pucaurquillo, Loreto, Peru, 1983), em que dançarinos, animais, espíritos, plantas, humanos, mais-que-humanos e outros seres interespécies festejam e ritualizam os cuidados com a água e a visão espiritual dos povos Murui e Bora. E temos os tecidos de algodão cru pintados por Jaider Esbell (Normandia, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, 1979 – Juquehy, São Paulo, 2021) com tintas feitas das plantas de cura urucum, jenipapo e kumará.
SONHAR ACORDADO
Às vezes, conversar com uma artista é sonhar longe. Conversar com Mali Salazar (Huaraz, Peru, 1991) produz um efeito dessa ordem. Atrás de seus três acrílicos sobre tela e das pequenas pinturas em acrílica sobre livro da série Montañas – Perros Vagabundos (2024) descortina-se o contexto que a levou a desenvolver a cosmologia das montanhas pela qual foi convidada a participar da mostra [leia entrevista com Manuela Moscoso]. Mali Salazar é artista, escritora, escaladora e guia de montanha no município natal de Huaraz, onde ficam os picos mais altos da Cordilheira dos Andes, com altitude de 6.768 metros. Mas, para chegar aqui, atravessou um mar de fogo (com a licença de parafrasear a frase do Ponto de Exu).

Mali trabalhou com duas galerias peruanas, onde fez exposições individuais e apresentou trabalhos como uma série de “autorretratos policiais grotescos e violentos”, em suas palavras. “Meu trabalho é estar presente nas instituições para poder brindar minha perspectiva do que acontece lá dentro.” Inclusive a instituição do montanhismo, à qual pertence hoje. Segundo ela, enquanto o montanhismo é movido por disputa e dinheiro, a escalada é uma arte, uma metafísica ancestral. E é a partir do reencontro com a montanha que ela desenvolveu a série que está exposta na bienal. As capas de cinco exemplares do livro que contém o conto Los Perros Vagabundos (1987), de Manuel Robles Alarcón – segundo Salazar, o precursor do indigenismo no Peru – são suporte para as montanhas.
ENTRE A VIGÍLIA E A IMAGEM
Mas não é preciso ir tão longe para testemunhar o encontro entre o real e o imaginário. Carla Duncan (Belém, Brasil, 1992) pinta cenas do comércio popular que formiga nas ruas do entorno do edifício onde acontece a bienal, o Centro Cultural das Amazônias. Mas, no teatro do prosaico que acontece em suas telas, tudo tende para o vermelho e nem tudo é comum. Há uma estranheza quente, barulhenta e tumultuada na série Celeuma (2023-2025). Assim como não há verdes nas telas de Rinaldo Klas (Moengo, Suriname, 1954) e os mesmos tons terrosos abordam os impactos da corrida do ouro nos interiores do Suriname, o pequeno país ao norte do estado do Pará, quase inteiramente ocupado pela Floresta Amazônica.

Assim como não há utopia nem fantasia, mas sim realidade, nas pinturas de Chico Ribeiro (Macapá, Brasil, 1999) que documentam o trabalho coletivo e a formação de comunidades agrícolas auto-organizadas nas periferias de Belém. A aura de lenda de A Mulher Que Vira Cobra (2025) fica só no título, pois este é mais um trabalho da série Mutirões que, junto com Trabalho Coletivo I – Colheita do Cacau (2023), parte da imersão de Ribeiro em Águas Brancas, território marcado por invasões (termo usado em Belém para designar as favelas), ocupações, precariedade e resistência. Um processo que ele vive de olhos bem abertos.

Verde-cinza, verde-mar, verde-mata, verde-chão, verde-terra, verde-barro, verde-curva, verde-reta, verde-plano, verde-margem… Milhares tons de verdes acendem nesta Bienal das Amazônias. Poderíamos passar a noite conversando sobre eles. Mas é tarde, o artista Yanomami lembra que é hora de nossa imagem (utupë) transpor o verde-limite. O verde cerca. O verde-horizonte.
SERVIÇO
2ª Bienal das Amazônias – Verde-Distância; até 30/11
Centro Cultural Bienal das Amazônias (Rua Manoel Barata, 400, Belém, PA)
www.bienalamazonias.org.br | @bienalamazonias