A jornalista brasileira que participou do WikiLeaks apenas começava a explicar ao entrevistador do podcast que, na literatura jornalística clássica, as melhores reportagens investigativas começam com um telefonema misterioso ou anônimo, quando o áudio foi interrompido pelo sinal do aplicativo de mensagens. A repórter pausou a entrevista e abriu o inbox. O remetente: o grupo Cli-Fi Novelists Rising. O assunto: convocação para a realização de uma reportagem para o site The Cli-Fi Report. A pauta: uma investigação acerca da contribuição da arte contemporânea para a discussão climática.
Sem assinatura de qualquer integrante do grupo, o texto apresentava possibilidades literárias do gênero: “A Ficção de Mudanças Climáticas [Climate Change Fiction], como os acadêmicos gostam de chamar, pode ser ficção especulativa. Mas também pode ser ficção literária como Flight Behavior, de Barbara Kingsolver, ou ficção cômica como South Pole Station, de Ashley Shelby, ou sátira, como Solar, de Ian McEwan, ou A Friend of the Earth, de TC Boyle. Cabe a cada escritor ir aonde o cli-fi o levar. Não há cânone, não há agenda, não há uma ‘escola cli-fi’. É um campo aberto. Sem regras”.
Em rápida pesquisa, a repórter se inteirou que o termo Climate Change Fiction cunhado em 2007 pelo jornalista e ativista Dan Bloom em resenha sobre a novela pós-apocalíptica Polar City Red. E que, em 2023, a New York Public Library colocou online uma lista de livros de ficção climática “para serem lidos antes que se tornem não ficção”; além de toda uma safra de títulos requentados pelo mercado editorial sob o rótulo de “thrillers ecológicos”. Efeitos do aquecimento global. A primeira dificuldade prática em colocar de pé um corpo de argumentos minimamente sólidos para sustentar a pauta sugerida, pensou, é o fato de a emergência climática – e com ela, inevitavelmente, a crise do imaginário capitalista hegemônico – não poder mais ser considerada um exercício especulativo. Como fazer uma leitura da arte contemporânea como campo discursivo acerca da crise ambiental em um tempo histórico em que a ficção científica foi superada pela realidade e metarrealidade?
Diante disso, a repórter achou por bem tomar a ficção climática como um gênero em mutação, em deslocamento desde a distopia e a especulação para um lugar de radicalidade e insurreição, ainda não nomeado. Aceitando a proposição de ser este um “campo aberto” de escrita, pensou que poderia, por exemplo, abordar o tema a partir da linguagem do manifesto. Porém, não sendo este texto uma obra coletiva, definiu a crítica de arte como ferramenta de escrita. Fixou três pontos cardeais para uma primeira abordagem da arte contemporânea em chave cli-fi e enviou para a plataforma de notícias do gênero literário um resumo pelo aplicativo de mensagens: o presente ensaio propõe uma reflexão acerca da influência dos modelos de produção econômica extrativistas sobre as emergências climáticas, por meio da leitura crítica do projeto Absurdo de Laura Lima, que versa sobre paradoxos e situações limítrofes.
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Três búfalos, 11 cavalos, cachorros e gatos não contabilizados, cerca de 15 mil pessoas. A primeira semana de resgates da Defesa Civil do Rio Grande do Sul na região metropolitana de Porto Alegre estava ainda longe de mensurar os desabrigados, feridos, enfermos e mortos na maior tragédia climática da história do Brasil. Em 40 dias seguidos de tempestades, enxurradas e enchentes, o IBGE calculou terem sido diretamente afetadas em torno de 2,4 milhões de pessoas, o equivalente a 22% da população do estado. Ainda que as estatísticas não alcancem a realidade de um desastre dessa magnitude, as responsabilidades, sim, são contabilizáveis. Em breve reconstituição do desastre ocorrido entre abril e junho de 2024 no Rio Grande do Sul, o embate entre testemunhos e linhas de cobertura jornalística apresenta-se aqui na forma de um diálogo-duelo entre duas personagens denominadas Fato e Ficção:
Fato – A ciência previu nos primeiros anos do século 21: se as emissões de carbono na atmosfera continuarem descontroladas, os eventos climáticos serão cada vez mais frequentes, resultando em desastres causados por maior ocorrência de ciclones tropicais, tornados, intensificação no volume das chuvas, enchentes em algumas regiões e aumento da seca em outras. O mundo se tornará inabitável. A primeira parte da previsão já se confirmou. Entre abril e maio, as chuvas no Rio Grande do Sul atingiram um volume sem precedentes desde o começo dos registros, em 1984, mas a Defesa Civil do estado só começou a pedir que os moradores deixassem suas casas cinco dias depois de receber os primeiros alertas sobre o potencial de gravidade das tempestades, quando 77 cidades já haviam sido atingidas. O pintor Carlos Santos Soares, de 24 anos, morador de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, passou quase três dias inteiros em cima de um telhado, mas seu caso não virou comoção nacional.
Ficção – O cavalo Caramelo foi resgatado ao vivo de um telhado em Canoas, virou um símbolo de resistência da catástrofe climática, felizmente passa bem e ganhou um microchip, tecnologia que permite a identificação e o monitoramento de seus dados de saúde.
Fato – Porto Alegre é uma cidade bastante aquática. Está localizada em uma região baixa, às margens do Rio Guaíba, para onde convergem as águas de cinco importantes rios do estado – Jacuí, Tapari, Caí, Sinos e Gravataí. Mas Porto Alegre não lida bem com suas águas. É uma cidade de difícil escoamento, situação agravada nos últimos 20 anos pelo aumento de áreas impermeabilizadas pela urbanização. As águas de abril começaram a cair justamente nas bacias hidrográficas dos afluentes do Guaíba. Desde os anos 1970, a cidade conta com um sistema considerado, por especialistas, robusto e eficiente contra inundações, que ocorrem quando o Guaíba ultrapassa a cota de 3 metros. Em setembro e depois em novembro de 2023, quando enchentes abalaram municípios na Bacia Taquari-Antes e as regiões ribeirinhas de Porto Alegre, a prefeitura da capital foi alertada, pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE), sobre problemas em quatro estações de bombeamento de águas pluviais (EBAPs). A manutenção não foi feita.
Ficção – A Prefeitura de Porto Alegre não admite falhas na manutenção do sistema anticheias e atribui a tragédia a acidente natural. As razões infraestruturais do desastre – a especulação imobiliária descontrolada e o agronegócio, que multiplicou por cinco as áreas de monocultura de soja no estado nos últimos 50 anos, danificando irreversivelmente ecossistemas fluviais e margens de rios – não foram contabilizadas pelas autoridades locais, que assumiram uma retórica conspiratória interpretando denúncias como “narrativa mentirosa”.
Fato – Engenheiros do extinto Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) elaboraram, em 2014, um plano para aumentar a potência das casas de bomba do sistema de drenagem da capital gaúcha. A verba foi disponibilizada pelo governo federal, mas a obra não foi realizada.
Ficção – A prefeitura de Porto Alegre nega a existência de expertise local e declara que contratará a consultoria internacional que atuou nos destroços do furacão Katrina, em Nova Orleans nos EUA, para elaborar um plano de recuperação. Nas redes sociais, o governador do estado critica as campanhas de solidariedade em apoio às vítimas das enchentes, afirmando prejudicarem o comércio local, e convoca um novo Plano Marshall, comparando a reconstrução do estado à reconstrução da Europa no pós-Guerra.
Fato – 480 normas ambientais estaduais do Rio Grande do Sul foram alteradas desde o primeiro ano de mandato do atual governo gaúcho. A extinção do DEP, vulgo departamento anticheias, implantado em 1976 com o sistema de contenção de águas, faz parte desse projeto de desmonte da legislação ambiental. Em escala nacional tramitam em comissões no Congresso e no Senado projetos de lei que extinguem regras de licenciamento ambiental.
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Fenômenos climáticos extremos povoam o imaginário crítico da arte contemporânea há pelo menos duas décadas. Ou desde que Francis Alÿs persegue tornados nos desertos do México.
A cidade de Porto Alegre já tinha vivido as grandes enchentes de 1859 e 1941 – a periodicidade dos desastres ambientais era até então de um por século –, quando Laura Lima foi convidada a curar um dos quatro armazéns da 7ª Bienal do Mercosul, em 2009. Mas não foi esse fato que ela levou em conta ao pensar um galpão navegável, em que os trabalhos de 12 artistas convidados tivessem de negociar com a água. Foi a noção de absurdo, implícita à sua pesquisa desde o início de sua atividade artística, quando deslocou uma vaca da montanha para a praia de Ipanema (Vaca na Montanha, 1994).
Absurdo, a curadoria de Laura Lima para a exposição Grito e Escuta na 7ª Bienal do Mercosul, transformaria o Armazém 5 do Cais Mauá em um galpão alagado com 50 cm de água. Uma estrutura seria montada com barras de alumínio e tecido, como uma piscina de montar. A partir de piers improvisados, as pessoas entrariam em balsas, que aportariam em ilhas flutuantes, onde os trabalhos estariam instalados. A instabilidade seria condição conceitual do trabalho. Mas a instabilidade calculada de Absurdo foi superada pelo imponderável quando, em 2009, os mercados globais foram atingidos pela pior tempestade financeira desde a Depressão de 1929, levando ao corte do orçamento da bienal. A água foi escoada do projeto e substituída por areia. Ou pela própria ideia de deserto.
“A água escoou – deve ter seguido o ciclo do rio –, restando apenas o solo arenoso. Existe um sentimento de desolação. A areia agora exige esforço para ser transposta. Não há meios de condução e o piso está desnivelado, inseguro. Mas permanece ainda a água de outros tempos. A inundação ainda parece possível. O Guaíba te ameaça” (Versa no Absurdo, Márcia Bechara e Laura Lima, 2009)
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Ao fim do primeiro mês de resgates em Porto Alegre, o curador-chefe da então futura 14ª Bienal do Mercosul avisou em entrevista que esta não seria a Bienal da Enchente. Mas o que os responsáveis pela exposição internacional – adiada de 2024 para março de 2025 – não consideraram é que uma bienal da enchente já havia sido aventada antes. Na linha do tempo dos cinco maiores alagamentos do Guaíba nos últimos cem anos – a saber, 1941, 1967, 2015, 2023, 2024 –, Absurdo insere-se entre o segundo e o terceiro.
Quando a água começa a baixar, juntamente com a areia, a lama e o lixo, surgem os monstros. Sinônimo de absurdo, quimera é um monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. É uma combinação heterogênea ou incongruente de elementos diversos. Cenário de devastação depois do colapso. Entre as ansiedades e sequelas do impacto emerge algo mais, que podemos entender como realismo traumático.
Embora a proposta curatorial possa ser interpretada como a repetição de um evento traumático cíclico, o trabalho artístico de Laura Lima não opera na chave da reprodução, mas da produção de efeitos. Repetição não é reprodução, anota Lacan em The Unconscious and the Repetition, seminário no qual Hal Foster se baseia para formalizar o conceito de realismo traumático – modelo crítico de teoria da arte com o qual analisa a série Death in America (1962-64), de Andy Warhol, em O Retorno do Real. “O traumático é um encontro perdido (ou a perda do encontro) com o real”, continua Lacan. “Perdido, o real não pode ser representado, mas apenas repetido, de fato ele precisa ser repetido” para que a quimera possa ser tomada pelos cornos e vencida.
ARTISTA-CURADORA
Desculpe interromper, mas precisamos entrar com as escavadeiras.
GALPÃO
Você pede licença pra me invadir?
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Com o número de caracteres quase estourado, a repórter termina com um ponto de interrogação que ecoa de um galpão alagado. Mas, ao abrir o aplicativo para mandar o texto, é interceptada pela notícia de uma descoberta revolucionária. Enquanto astronautas da Nasa presos no espaço aguardam resgate na Estação Espacial Internacional, cientistas chineses identificam uma espécie de musgo do deserto, Syntrichia Caninervis, que tem potencial para colonizar ambientes extraterrestres. Originário da região ocidental de Xinjiang, esse organismo tem extraordinária resiliência ambiental, super-resistência a condições extremas e supertolerância ao estresse, podendo suportar temperaturas ultrabaixas e altos níveis de radiação.
A informação de que a Syntrichia Caninervis, após perder 98% de seu conteúdo celular de água, ainda pode recuperar atividades fotossintéticas e fisiológicas em segundos, além de se regenerar depois de ser guardada em freezer a menos 80ºC por cinco anos ou em nitrogênio líquido por um mês, faz com que a repórter subitamente mude de ideia. Em vez de mandar o texto para o The Cli-Fi Report, como combinado, e lembrando-se vagamente de uma receita que Laura Lima uma vez havia compartilhado com ela, imprime o texto, passa-o pela máquina de processamento de papel, adiciona um pouco de água e areia, coloca tudo em um frasco, agita bem e guarda no congelador. Para, quem sabe um dia – o fatídico dia da colonização de Marte pelas Big Techs –, abrir, reler o que do texto restou e ver no que o monstro se transmutou.