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Detalhe de páginas do livro O Corpo da Linha, de Edith Derdyk, publicado pela editora Relicário [Fotos: cortesia da artista]
Postado em 11/08/2025 - 8:26
Uma cosmogonia da linha
O Corpo da Linha é antes uma espécie de manual ou guia pelo avesso. Mais do que explicações, ele traz perguntas, provoca sinapses, deixa inquietações

Edith Derdyk é um dínamo, produz incansavelmente do alto de seus quase 70 anos de vida e 50 de carreira. Cria instalações visuais, compõe canções, escreve livros, ilustra, inventa cursos, organiza imersões, realiza caminhadas filosóficas, ministra aulas, coordena pós-graduações. Tudo a partir do desenho, ou antes ainda, da linha. Mas a linha para Edith é o entre, a intersecção, a fronteira. As ideias de tessitura, de textura, de texto e de palimpsesto se misturam na sua obra de tal forma amalgamadas, num imbricamento tal que torna tudo uma coisa só e, ao mesmo tempo, múltiplos fragmentos. Mas, anterior a tudo, a linha para Edith é uma manifestação do corpo, é uma extensão do corpo. Ela é o rastro primordial do corpo no mundo.

O livro O Corpo da Linha, de Edith Derdyk, lançado pela Editora Relicário, me pareceu, num primeiro momento, uma espécie de estudo arqueológico da linha pela sua amplitude temática e seu fôlego intelectual no mergulho profundo em busca da epigênese da linha. Nele, a artista define e conceitua várias formas de linha. Durante a leitura, descobri tratar-se na verdade de uma cosmogonia da linha pois Derdyk instaura realidades e recria o universo a partir de sua escrita poética e política.

O livro é trabalho de uma vida inteira de pensamentos desenhados no corpo. Edith pensa desenhando. E pensa alinhando o pensamento múltiplo de outros criadores-pensadores como ela, sejam filósofos, historiadores, antropólogos, artistas ou cientistas. De Flávio Motta a Francesco Careri, de Gilberto Gil a John Cage, de Marcel Duchamp a Lygia Clark, de Gilles Deleuze a Allan Kaprow, de João Cabral de Melo Neto a Fernando Pessoa, de Giorgio Agamben a Haroldo de Campos, de Clarice Lispector a Nam June Paik, todos são antes companheiros de caminhada com quem ela dialoga sem nenhuma filiação ou fidelidade ideológica. 

Sobretudo, Derdyk é uma caminhante. Enquanto caminha, ela pensa e desenha um percurso. Caminhar é uma forma de desenhar nosso trajeto no mundo desde tempos imemoriais.

PEDAGOGIA DO LUGAR-ENTRE
Como músico, fico pensando na relação da linha com as ondas sonoras. A representação mais comum da onda sonora é uma linha. Mas essa é uma representação esquematizada, simplificada, afinal a onda tem volume, tem densidade, é tridimensional e espectral. Uma representação mais fiel da onda sonora seria, portanto, uma sobreposição de linhas. Nesse sentido, o livro de Edith Derdyk abre uma perspectiva insuspeita. A densidade, o volume, a materialidade das coisas são muito mais complexos do que a simplificação simbólica da linha como representação do real no imaginário ocidental. Como diz a artista na sua pedagogia do lugar-entre: 

“O olhar emoldurado pela herança clássica atribui demasiado valor à qualidade linear da linha que intenta reproduzir aquilo que acreditamos ver em relação ao referente. A linha-contorno subjugada ao ideário neoclássico – apolínea, idealizada, uniforme, sem porosidade com o ambiente -, visa a captura das formas como sistema de equivalência com uma ideia de real. A encarnação máxima da linha-contorno, quando olhamos o retrovisor do nosso percurso histórico, encontra seu maior eco no tônus neoclássico. Trata-se de uma qualidade de linha manejada pela supremacia do olhar sobre os outros sentidos, olhar que comanda o gesto cujo destino é dado a priori”.

Para além do seu caráter reflexivo e pedagógico, O Corpo da Linha é também um manifesto contra a linha de produção, a aceleração da vida contemporânea pós-revolução industrial, a automatização dos processos industriais e a algoritmização das relações digitais. É um manifesto pela vida orgânica, afinal o desenho é uma atividade manual pré-industrial. 

O livro pode ser lido, portanto, também como um manifesto contra o aceleracionismo. O desenho como manifestação do corpo é orgânico, é ecológico, é natural. A academia francesa instaurou uma ideia de composição, de forma, de cópia do real, a partir da herança neoclássica, protagonizada pela visão como sentido predominante. Essa posição corrobora a ideia mecanicista de progresso, de desenvolvimento como desenvolvimentismo. Mas a linha da vida não é linear, assim como não há uma finalidade teleológica nem um sentido determinante. O desenho incorpora vários sentidos e empenha as várias possibilidades de interpretação a partir dessas diferentes percepções sensoriais. Desenhar nessa perspectiva é uma atividade subversiva.

GRAMÁTICA DA LINHA
O Corpo da Linha dialoga diretamente com outro livro de Derdyk escrito muitos anos antes, Formas de Pensar o Desenho (1988), lançado originalmente pela Editora Scipione e reeditado, em 2020, pela Panda Books. Nele, a autora trabalha com o desenho numa perspectiva mais didática, dando pistas para os educadores sobre novas maneiras de pensar o desenho com os alunos. Essa tentativa de desautomatizar representações da arte, da ciência e da técnica assume um caráter mais amplo em O Corpo da Linha. O que era didático nas Formas, torna-se uma Paideia, uma formação, a irrupção da imanência, ou simplesmente o renascimento da infância na relação com o desenho e com a ideia de representação. 

Como diz Edith em sua gramática da língua:

“A expressão frequente ’não sei desenhar’ evidencia a prisão do corpo dentro da noção de linha-contorno, comandada por um modelo representacional que colide com a vocação transitiva do desenho. Da constatação de que o desenho é linguagem atávica, presente em nossa aventura civilizatória desde os primeiros signos visuais inscritos em cavernas, como afirmar que não sabemos desenhar? O desenho, como qualquer linguagem, absorve construções cognitivas historicizadas que mediam nossas percepções”.

Mas o desenho é também, sobretudo, uma forma de linguagem. Ele se manifesta como primeira língua, ou, ainda, como proto-linguagem. O desenho como primeira manifestação do corpo para além do corpo. E, se O Corpo da Linha é uma arqueologia do desenho, para Edith Derdyk o desenho é uma forma de pensamento, é o pensamento da linguagem pré categorial. É o pensamento selvagem, como intuiu Lévi-Strauss ao vislumbrar a maneira muito particular de encadeamento das ideias dos povos ameríndios. O desenho como pensamento selvagem remete, por sua vez, aos processos de escrita automática dos surrealistas, aos estados alterados de consciência, a um acesso instantâneo do arquétipo universal junguiano. Derdyk perscruta o inaudível no desenho antes dele assumir sentido, o desenho sem forma que toma corpo no embaralhamento das linhas.

A escrita telegráfica de Joyce no Ulisses, a prosa poética de Haroldo [de Campos] nas Galáxias, a recriação fáustica de Guimarães Rosa, onde o sentido vem por decantação, como um resíduo que vai se acumulando e formando um palimpsesto no córtex após as releituras, após as rasuras e rabiscos. Edith Derdyk vislumbra o desenho em sua forma pré-racional, antes de se tornar coisa, mas como possibilidades múltiplas de sentido em determinados contextos e situações. Em O Corpo da Linha, o desenho é um território de disputa em busca do sentido. Por isso ele antecede o senso, a razão, a racionalização. O sentido vai surgir durante o processo no tempo-espaço de criação de uma forma indefinida e indefinível.

Pensadores não ortodoxos, não alinhados, que pensam fora dos padrões pré-estabelecidos, que misturam os conceitos e embaralham as definições, que dialogam com as contradições num processo dialético orgânico e idiossincrático, nos ajudam a compreender a complexidade de um mundo em estado entrópico. Edith Derdyk se insere nessa categoria de pensadores que une as pontas soltas da ciência, das artes, das grandes tradições místicas, das filosofias ancestrais, do discurso contemporâneo e caótico das redes.

O livro da artista, em última instância, nos fornece ferramentas para pensar nossa própria representação da realidade e do mundo, na medida em que o desenho é uma representação da realidade por meio da linha. Nesse momento agudo em que vivemos, repensar nossa forma de representar o que está diante dos nossos olhos a partir de uma outra perspectiva talvez seja nossa única chance de superar os desafios que se impõem. Não poderia ser diferente. Quem conhece Edith percebe logo sua força latente. O Tai chi diário, seu ateliê-biblioteca, a resistência física e o apuro mental, as observações sempre contundentes sobre o estado das coisas, ela está no auge e parece que ainda não chegou ao ponto de ser reconhecida como deveria. Nem poderia, pois ela está sempre em movimento. 

Mas O Corpo da Linha confirma sua posição de criadora-pensadora original que constrói com seu corpo e com sua obra uma representação inaudita do mundo.

EM O CORPO DA LINHA, O DESENHO É UM TERRITÓRIO DE DISPUTA EM BUSCA DO SENTIDO. POR ISSO ELE ANTECEDE A RACIONALIZAÇÃO. O SENTIDO VAI SURGIR DURANTE O PROCESSO NO TEMPO-ESPAÇO DE CRIAÇÃO DE UMA FORMA INDEFINIDA E INDEFINÍVEL

Makely Ka é compositor e escritor. Lançou seis álbuns, entre eles Triste Entrópico (2024) e o livro Ego Excêntrico (2003). Editou uma revista literária, dirigiu um documentário e criou trilhas para filmes e espetáculos de dança e teatro.