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O Outro, Eu e os Outros (2025), de Iván Argote [Foto: Eduardo Ortega]
Postado em 23/07/2025 - 8:04
Vão do Masp: Espaço Democrático
Os desenhos de Lina Bo Bardi expressam o desejo pela multiplicidade de acontecimentos para o vão do Masp, marcado na memória popular por manifestações políticas e culturais desde sua abertura, em 1968

Após a gestão Haddad ter, em 2014, aberto a avenida Paulista para pedestres aos domingos, a vitalidade e a cultura do espaço entraram em expansão,  intensificando a presença de diversos extratos sociais. Por diversos anos o local abrigou o funcionamento da feira de antiguidade que, em 2025, passou a ser realizada no Parque Mário Covas, também na avenida Paulista.

Desde sua inauguração, o vão do Masp permaneceu aberto por 56 anos. Seu primeiro fechamento ocorreu em abril de 2024 para a restauração dos elementos de fachada do museu. Em novembro do mesmo ano, o Masp recebe da prefeitura a concessão para utilizar o espaço do vão e, em abril de 2025, ele reabre abrigando a exposição “O Outro, Eu e os Outros”, do artista colombiano Iván Argote. Plataformas metálicas desenhadas pelo artista promovem uma descoberta sensorial e social, uma reflexão sobre o papel do indivíduo no coletivo e no espaço público.

No filme Arquitetura, Transformação e Espaço (1972), Bo Bardi comenta: “Quando fiz o projeto do Museu de Arte de São Paulo, minha preocupação essencial era fazer uma arquitetura feia, uma arquitetura que não fosse uma arquitetura formal, embora, infelizmente, ainda tivesse problemas formais. Uma arquitetura ruim e com espaços livres que pudessem ser criados pela comunidade. Assim nasceu o grande mirante do museu, com a pequena escadaria. A escadaria não é uma escadaria palaciana, mas uma tribuna que pode ser transformada em pódio para discursos. A maioria das pessoas acha o museu ruim, e é. Eu queria fazer um projeto ruim. Ou seja, formalmente e arquitetonicamente feio, mas que fosse um espaço utilizável, algo usado por seres humanos.”. A arquiteta pensa o espaço livre sendo criado pela sociedade, moldado pelo dinamismo político-cultural. Essa arquitetura é “feia”, afinal, porque está longe da estética burguesa em seu entorno. A feiura e a ruindade são elementos que ela usa para negar uma função, já exercida por projetos fruídos e encomendados pela classe alta paulistana, e assim deixar espaço livre para outra: estar acessível para a sociedade. 

O Outro, Eu e os Outros (2025), de Iván Argote [Foto: Eduardo Ortega]

O fundamento disposto pelo Museu de Arte de São Paulo na solicitação de concessão do espaço propõe, além das exposições, preservar o uso concebido por Bo Bardi, complementando: “o Masp acaba assumindo diversas responsabilidades do poder público, tais como limpeza do espaço (realizada semanalmente) e sua conservação. Outro aspecto extremamente sensível com relação ao referido Vão é a segurança”. O museu propõe a concessão privada como solução para um abandono do poder público, ou seja, o texto – publicado no Diário Oficial da Cidade – situa as dinâmicas e as ações de atores institucionais que determinam o espaço do vão livre. Ainda nas justificativas, o Masp descreve o uso por uma “parcela muito limitada da população” (mas não exemplifica quem é a população sem acesso ao vão) e pretende solucionar essa vitalidade desalinhada com a realização de atividades recorrentes no local, idealizadas pelo museu. Adiciona: “Não obstante hoje o Vão Livre ser uma praça pública e não fazer parte da concessão do Edifício Trianon, uma vez que o Vão Livre é uma extensão do próprio edifício”. Aqui se declara que, em sua concepção original, o vão é uma extensão física e conceitual do edifício, motivo pelo qual o museu encara como sua própria demanda a gestão do espaço. 

É reconhecível a conduta do Masp em promover cultura em tempos contemporâneos nos quais os espaços são circuitos sobrepostos de experiências culturais. É uma questão pertinente à reflexão do espaço democrático, que por vezes não tem um uso específico. Bo Bardi, em texto para o museu, comenta: “Procurei uma arquitetura simples, uma arquitetura que pudesse comunicar de imediato aquilo que, no passado, se chamou de “monumental”, isto é, o sentido de “coletivo”, da ”Dignidade Cívica”. Em suas declarações de uso, a arquiteta sempre enfatiza o quão cívica é a função do vão. Ou seja, resta visualizar como um órgão privado irá coordenar a prática de manifestações públicas no espaço.

Sensibilizar-nos sobre as dinâmicas do vão do Masp nos proporciona perceber a construção da ideia de espaço democrático dentro de uma democracia. Milton Santos, em uma de suas reflexões sobre espaço, afirma que há desigualdades sociais que são, em primeiro lugar, desigualdades territoriais, porque derivam do lugar onde cada qual se encontra. Seu tratamento não pode ser alheio às realidades territoriais. O cidadão é o indivíduo num lugar. A República somente será realmente democrática quando considerar todos os cidadãos como iguais, independentemente do lugar onde estejam”. Existe um caráter intrínseco entre vão do Masp como espaço aberto e a ideia de cidadão, para qual o espaço se habilita como suporte de expressão de qualquer indivíduo e possibilita sua compreensão como objeto vivo de uma democracia. Por isso se torna essencial observar se a concessão para o Masp não é o caso de um movimento generalizado de fuga democrática, via privatização, por parte de um poder público.