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Desenhos de Alan Adi
Postado em 29/04/2025 - 2:32
Virando o jogo
Como um museu e uma escola de samba dão novos rumos pra si – e para uma cidade

Quem se acostumou a perceber a cidade do Rio de Janeiro como um dos focos de atenção das artes visuais no Brasil pode ter sido tomado pelo histórico de suas instituições e tudo o que essas condicionaram. A Escola de Belas Artes mais antiga do país, um Museu de Arte Moderna fundado há mais de 75 anos, um imprescindível Museu de Arte do Rio com pouco mais de 10 anos e uma feira de arte de grande visibilidade reforçam o que há muito se sabe: corre ainda na costa da Guanabara um dos circuitos mais percebidos do Brasil. 

Pensemos aqui sobre que instituições são essas. Elas compreendem esses equipamentos que atuam e contribuem tanto no fomento da produção artística em suas bases quanto na condição de aportar práticas já existentes, que se acumulam e que progressivamente necessitam de mais espaço. A cena carioca se vale de ambas as naturezas, e muito mais da compreensão de que, em seu território, se vive artes visuais para além de qualquer teto de galeria – inclusive dentro da perspectiva da educação. O que faz a Estácio de Sá desde que era a agremiação Deixa Falar (1928) bem como o que fazem suas coirmãs é a prova de que organização entre pares de um fazer artístico coincide com a vontade de continuar a fazê-lo, cada vez mais, maior e melhor, entendendo essa prática como instrumento atuante do campo do conhecimento. 

Uma Escola de Samba é, antes de tudo, uma escola de práticas artísticas baseadas na convocação genuína de uma comunidade e na convicção de que quem a faz tem muito a mostrar e a ensinar.

SAPUCAÍ
Pertinho do litoral, ainda na região central (trecho onde se localiza grande parte dos equipamentos culturais mais celebrados) está a Avenida Marquês de Sapucaí, asfalto que integra o Sambódromo. Este projeto que completou recentemente 40 anos foi desenhado por Oscar Niemeyer diante do interesse do então vice-governador do mandato Brizola, o educador Darcy Ribeiro; o mesmo que dá nome oficial à passarela do samba. Para além de servir aos desfiles de algumas séries do Carnaval, a edificação foi pensada para abrigar uma unidade dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Por dentro dos Brizolões (cognome desses centros) a ideia de ensino se filia ao contexto prático de ocupação do tempo e do espaço com diversas atividades que conduzem o indivíduo à socialização sadia advinda dos saberes; algo em que as agremiações do Samba também se fundamentam.

Na outra banda do litoral da Baía há outro concretizado projeto desenhado por Oscar Niemeyer: o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC). Este equipamento se soma a outras edificações que ladeiam a costa niteroiense, integrando um percurso denominado Caminho Niemeyer o qual inclui teatro, cinema, arena multiuso, praças, estação marítima e tantas outras construções. Muita coisa, mas sem dúvida é o MAC que protagoniza tudo. Pela cidade, a silhueta do museu chega a todo instante e podemos avistar o desenho leve de seu contorno adesivado em ônibus, táxis, lanchonetes e em uma variedade de divulgações de serviços do comércio. O semblante do MAC tornou-se uma imagem popular tal qual as curvas de um Corcovado, indissociável da convivência diária entre população e cidade. Não sei se há outra edificação originária das artes visuais no país com tamanha visibilidade dentro de suas fronteiras municipais a ponto de funcionar como retrato do lugar.

E eis aí uma instituição que tem em si sua glória e sua dívida. Como comunicar que existe uma maravilha também em seu interior? Quem o vê à distância se motiva a notá-lo por dentro? Talvez a sabedoria de uma Escola de Samba possa compartilhar algo com o museu.

NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS, O MAC VEM CONSTRUINDO UMA PROGRAMAÇÃO QUE SE ATENTA EM NÃO SER UMA REPRISE CURATORIAL DOS MUSEUS DO OUTRO LADO DA BAÍA

VIRADOURO
Vem de sua quadra no Barreto, bairro a 5 km dali, a Unidos do Viradouro. Com quase 80 anos, a agremiação ganhou sua primeira estrela da Série Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 1997, meses após a inauguração do MAC. Entre dissabores nas décadas seguintes, se ergueu nos últimos anos e, desde que retornou em 2019 ao grupo Especial, encabeça as primeiras colocações da apuração no Sambódromo. Também desde esse período, sobretudo a partir da reabertura dos espaços culturais pós-pandemia, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói vem ganhando novo brilho.

Nos últimos dois anos, o MAC investiu em uma programação que se atenta em não ser uma reprise curatorial dos museus do outro lado da Baía, sem descaracterizar sua matriz, investindo pouco a pouco em exposições que reafirmam seu sobrenome. No momento, suas galerias se ocupam de um desenho cuidadoso à população que pode ser iscada tanto pela monumental obra do arquiteto quanto pelas mostras, jogando a favor da arte contemporânea. Simultâneas, as exposições conseguem acrescentar uma à outra, em uma combinação que revigora o museu e aprofunda a conexão com sua comunidade.

Um exemplo este ano foi a exposição, no salão central, de Cesar Coelho, artista que produz em Niterói, com a série Cidade Silenciosa, sob curadoria de Marcus Lontra. A expografia bem calculada para esse espaço prova a excelência de ambos. No percurso da galeria lateral esteve em cartaz ao mesmo tempo Entre Esculturas e Objetos – Capítulo II, uma mostra que rememora sua primeira versão de 1997. A de 2025 reuniu peças em comodato da coleção de João Sattamini (1933-2008), entre as quais uma escultura de Cristina Salgado (1957) e dois objetos da mais pura beleza de Efrain Almeida (1964-2024), além de obras doadas nos últimos anos para o acervo do museu assinadas por nomes já proeminentes da cena, a exemplo de Mulambö (1995). 

Trata-se assim de uma exposição que compreende uma das motivações da fundação do museu (abrigar um acervo), bem como se torna um manifesto que aponta dificuldades, desafios e desejos desse mesmo museu depois de tempos no divã. Se no início da mostra nos deparamos com peças de uma coleção privada aos cuidados de apresentação da instituição, ao fim temos afirmada a intenção de adquirir novas obras a partir de políticas públicas em curso na cidade, sob vontade de pluralizá-lo. A gestão do museu mantém um olhar sabido do que pede e do que pode a cidade, sem acomodar o território a mostras de “cenários imersivos” nem se entregar aos velhos vícios elitistas que já vimos aplicados no século passado em espaços dedicados à arte contemporânea. 

O DESAFIO DO MEZANINO
Para além da programação que agora se firma, notamos outras ações importantes, como o restauro de algumas peças de seu acervo, a recuperação de partes originais da edificação – a exemplo do pátio e sua fonte, bem como o plano de iluminação de todo o gigante espaço expositivo, incluindo o desafiador mezanino: e olha a Viradouro chegando… Nesse pavimento elevado do museu ocorreu a mostra Arroboboi, Dangbé, uma celebração ao desfile campeão da Escola ocorrido em 2024, com enredo criado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. Com curadoria de Renata Xavier, a exposição reuniu um vasto registro produzido pela própria curadora e outros quatro fotógrafos (Keila Ribeiro, Leandro Joras, Leandro Lucas e Rodrigo Palma), revelando o que aconteceu nos 67 minutos da passagem da Viradouro pela Sapucaí. 

Impressas em tecido, as 200 fotografias em formatos que muitas vezes ultrapassam nossa altura formam um conjunto condizente com o próprio gigantismo do desfile. Para além das fotos, ainda há peças valiosas para a compreensão de como o desfile foi construído. Maquete, figurinos produzidos por Alessandra Reis, fantasias e adereços que compuseram as alas, textos de João Gustavo Melo, desenhos de Roberto Monteiro e do próprio Tarcísio Zanon, artista corresponsável pelos enredos que levaram mais duas estrelas ao pavilhão alvirrubro de Niterói. Aos domingos pela manhã havia a circulação da grande serpente que compôs parte da comissão de frente coordenada por Priscilla Mota e Rodrigo Negri. A peça alude ao sagrado “poder que rasteja na terra‟, uma das representações de Dan, vodun da nação Jeje que, enquanto serpente e entre outros domínios, evoca a força vital da continuidade.

Tal qual a Viradouro, o MAC merece continuar entendendo-se como um grande construtor de espetáculos, com o desafio de competir apenas consigo. A presença da atual campeã do Carnaval fala ao museu que apostar na continuidade de sua reestruturação é manter a convicção de sua grandeza, compreendendo seu tamanho e destravando seu alcance de público. E vale pensarmos que público não merece ser confundido com um punhado de números, milhares em bilheterias ou uma quantidade de likes: uma Escola de Samba jamais se renderá à deslealdade que desfigura a palavra “engajamento” na gramática das redes sociais. Público é parte integrante de uma instituição; gente que acredita que a sua presença, na avenida ou no museu, faz diferença e vale a experiência de ter saído de casa, de se juntar e de estar vivendo, ensinando e aprendendo. Que a onipresença de Niemeyer por esse lado da Baía continue convocando a sabedoria de Darcy – nesse e nos próximos carnavais.

PÚBLICO É PARTE INTEGRANTE DE UMA INSTITUIÇÃO; GENTE QUE ACREDITA QUE A SUA PRESENÇA, NA AVENIDA OU NO MUSEU, FAZ DIFERENÇA E VALE A EXPERIÊNCIA DE TER SAÍDO DE CASA

Alan Adi (1986) é artista com interesse em assuntos relacionados à formação da sociedade brasileira. Mestre em artes visuais e licenciado em Letras. Pinta e faz verso.