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Detalhe da capa do livro Querido Babaca, de Virginie Despendes
Postado em 18/12/2024 - 7:21
Virginie Despentes te leva até lá
Querido Babaca contrai política identitária, #metoo, pandemia e crise de meia-idade em três personagens pouco amáveis

O motivo que aproxima Oscar Jayack e Rebecca Latté é ultrajante. O escritor decadente publica um comentário misógino em uma rede social sobre o envelhecimento da famosa atriz francesa. Aliás, dependendo de onde você se encontra no espectro da misoginia, poderá levar 30, 70 ou 190 páginas para entender que Zoé Katana foi vítima de assédio. Não tem problema, o importante é chegar lá. 

As vidas das três personagens se entrelaçam e se sobredeterminam ao longo de uma narrativa ágil e estimulante, bem característica de Virginie Despentes, escritora francesa por trás de Teoria King Kong e A Vida de Vernon Subutex, para citar títulos traduzidos para o português em anos recentes.

O mais alucinante aqui não são os plot twists, mas as viragens de pontos de vista sociais. Despentes mais uma vez ironiza o dispositivo literatura-contemporânea para oferecer uma prova cabal da babaquice de seus leitores: o fato de que alguns talvez precisem de décadas para aceitar que Oscar Jayack é um assediador. 

O tecido da narrativa estrutura-se em torno de textos. Há o texto de Zoé Katana, publicado em seu blog feminista, sobre o assédio sofrido quando trabalhava como assessora de imprensa para o então poderoso Jayack. Há o post de Jayack. Há o e-mail de Rebecca Latté respondendo à ofensa, em missiva que se inicia com “querido babaca”. 

Querido Babaca é um romance epistolar tanto quanto Eu Amo Dick, de Chris Kraus. A estrutura narrativa organizada em uma sequência de cartas – ou, no caso do livro de Despentes, e-mails – apenas distrai o/a leitor/a da existência de um/a narrador/a, mas o narrador está presente mesmo quando ausente. O dispositivo epistolar também distrai o/a escritor/a da necessidade de verossimilhança, como nos ensina Rancière, de modo que o rótulo e a generificação são contraproducentes de todos os ângulos de análise da obra. É ler para crer.

O livro é uma iniciativa da Fósforo, em edição bem cuidada, com tradução de Marcela Vieira. Torçamos para que a editora publique também Les Jolies Choses (1998) e Bye Bye, Blondie (2004), ainda não vertidos para o português brasileiro.

 

SERVIÇO

www.fosforoeditora.com.br

Querido Babaca, de Virginie Despentes, Editora Fósforo, 250 págs., R$ 89,90

Capa do livro Querido Babaca, de Virginie Despendes