Poucas vezes na já longa história das bienais de arte contemporânea ficou tão evidente o objetivo de diplomacia geopolítica do que na Manifesta 10, em São Petersburgo (Rússia). A motivação oficial é a comemoração dos 250 anos do Museu Hermitage, um dos mais importantes e extensos acervos de arte de todos os tempos reunidos no planeta. O evento assinala também a longevidade de um projeto de bienal nômade, realizada em uma capital diferente a cada edição, que surgiu em 1994, na esteira da queda do Muro de Berlim e no desejo de uma nova utopia de convívio pacífico pan-europeu.
Irônico, claro, que esta Manifesta ocorra quando o atual governo russo restaura sonhos imperiais e ações militares veladas ou explícitas contra nações independentes, visando recuperar territórios que pertenceram à União Soviética. É contexto incômodo para os organizadores da Manifesta, instituição com sede administrativa na Holanda e longa lista de eventos realizados por curadores de prestígio. O ótimo resultado da mostra, porém, demonstra que o desafio foi vencido com brilho.
Na entrevista coletiva, realizada na entrada da nova ala do Museu Hermitage, belamente redesenhada pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas, a intrépida Hedwig Fijen, diretora-fundadora da Manifesta, assinalou: “Acreditamos na resolução dos conflitos do nosso tempo pela via da civilidade e da cultura”. Ela reafirmou “a permanência do ideário que nos fez criar a Manifesta, há 20 anos, para agir contra uma Europa separada, algo que agora se apresenta mais do que nunca como objetivo importante”.

A Manifesta 10 tem extenso programa de eventos, com performances, palestras e mostras paralelas. Uma delas, Apartment Art como Resistência Doméstica, faz exposições trocadas diariamente, espelhando a vigorosa produção emergente. A edição russa da Manifesta inseriu-se, assim, na tradição de diálogo cultural estabelecida pela cidade de São Petersburgo desde a sua fundação, em 1703, por Pedro, o Grande. Uma cidade de urbanismo francês ecoando Haussmann em seus largos bulevares e amplas avenidas. Uma cidade que, capital do império russo por 200 anos, foi e continua sendo a porta de entrada da cultura ocidental naquela fatia do mapa.
*Crítica publicada originalmente na edição #20